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(Foto: Reprodução)
Cinema do Centro-Oeste traz agroboys, sertanejo e críticas ao Brasil de Bolsonaro
por Folha Ilustrada em abril de 2022
Filmes como 'Vento Seco', 'Fogaréu', 'Madalena' e 'Mato Seco em Chamas' se aprofundam no país e rejeitam conservadorismo
Luzes de neon ressaltam as curvas e preenchem de cor diversos corpos masculinos. O protagonista da cena, nu como os outros, passeia com o sabonete por sua pele e analisa furtivamente seus colegas de vestiário. Esta não é uma sauna gay do Largo do Arouche, em São Paulo, ou um "dark room" de Ipanema, no Rio. Estamos no interior do Brasil, numa cidadezinha de 110 mil habitantes de Goiás.
Perto dali, no Distrito Federal, um grupo de mulheres poderosas decide viver sob suas próprias leis, desafiando o patriarcado à sua volta. Já no Mato Grosso do Sul, outro agrupamento, este formado por trans e lésbicas, dirige por uma estrada que corta o verde interminável das plantações ao redor.
Os personagens de "Vento Seco", "Mato Seco em Chamas" e "Madalena", nesta ordem, são o oposto dos estereótipos de conservadorismo que se costuma colar ao Centro-Oeste do Brasil e aparecem aos montes no cinema que tem saído dali.
Regionalismos perseveram, vale dizer, do chapéu de caubói do homem que se masturba sobre o rosto de um rapazinho de coleira em "Vento Seco", à soja que envolve o corpo da mulher trans encontrada morta em "Madalena". Mas, no geral, essas figuras e suas trajetórias pouco têm a ver com o que se associa à região, marcada pelo agronegócio e por governos mais à direita.
Isso também é verdade em "Fogaréu", em que uma moça retorna, depois de anos, à cidade de Goiás e entra em rota de colisão com seus parentes reacionários, que reivindicam terras indígenas e vestem roupas como as da Ku Klux Klan. Ou em "Vermelha", em que um cobrador de dívidas desfila com seus violentos capangas, em "Mascarados", impulsionado pelo desmonte de leis trabalhistas, e "Dias Vazios", sobre uma juventude sem esperança que quer fugir dali.